Aos vinte e nove

setembro 23, 2014


wpid-2014-09-20-15-54-32_deco.jpg

Eu não lembro lá muito bem como é que foi, mas sei que foi na segunda série do fundamental. A professora deve ter te chamado para ir na frente da turma, ao lado dela, e te apresentou. Tu sorriu timidamente por baixo da franja (que nunca ficou bem em ti) adornada por uma tiara e o cabelo na altura dos ombros, cacheados nas pontas e embaraçados.

Se não me falha a memória, fui eu quem chegou perto de ti para começar uma conversa. Me apresentei, perguntei se podia sentar do teu lado. Eu não era a aluna mais popular da turma e não tinha um grupo de amigas fixas, de modo que, para mim, foi um ato tão natural quanto beber água.

Foram poucos anos estudando juntas, porque eu troquei de colégio, mas foram anos incríveis. Daqueles anos em que corríamos pelo pátio por nada. Fantasiávamos juntas com Michael Jackson, Patrine, Cavaleiros do Zodíaco e Winspector. Brigávamos porque eu achava Cavaleiros mais legal e tu porque amava um dos atores de Winspector. Mas a Patrine era motivo de concordância obrigatória: queríamos aquele vestido, aquela boina ridícula e combater o Diabo do Inferno.

Não fiquei com ciúmes quando a tua irmã mais nova nasceu. Na verdade eu me aborrecia porque quando eu ligava ela acordava e chorava e a culpa era sempre minha. Mas mesmo assim a gente conseguia conversar e combinar de uma ir na casa da outra. E quando eu ia na tua casa, nos trancafiávamos no quarto e brincávamos de modelos divas na frente do espelho, tentávamos miseravelmente fazer scrapbooks, desenhos e corríamos de patins com os teus vizinhos, porque no meu prédio eu só tinha uma vizinha na nossa faixa etária com quem eu me dava bem.

Tu veio no meu aniversário e lutou para ficar do meu lado, mas sempre tinha aquela coleguinha meio ciumenta com quem eu tinha que te dividir na hora de recreio. A gente fez uma rodinha e dançamos o CD inteiro de Ace of Base, cantando errado, mas sem se importar menos com isso.

Fiquei triste quando mudei de colégio. Mas eu sabia que ia conseguir te ligar e que iríamos uma na casa da outra nos finais de semana, e foi isso o que aconteceu. Fizemos amizades nos respectivos colégios, mas nada que nos impedisse que se ver. Acho até que aderimos àquela modinha pré-adolescente de passear pelo shopping sem a menor intenção de comprar nada. Mas fomos.

O tempo foi passando e a vida nos obrigou a nos ver cada vez menos, colocando novas pessoas em nossas vidas: amigos do colégio, namoradinhos, amigos dos amigos, amigos do namoradinho. Isso sem falar nas provas, nas exigências naturais da transição da adolescência para a vida adulta. No desespero, mandamos cartas uma para a outra, mesmo morando na mesma cidade. Não lembro se respondi a última carta. Mas lembro que guardei.

Vimos Harry Potter juntas e foi muito divertido. Lemos os primeiros livros avidamente e decidimos enviar cartas para praticamente todo o elenco, inclusive o compositor musical. Separamos as cartas por personagens favoritos: eu mandei para o Snape; tu mandou pro Malfoy. Nenhum respondeu.

Não lembro quando começamos a nos ver tão raramente, mas foi algo natural. Os aniversários estavam aí, mas ocasiões de almoço também. Eu queria ter te convidado para outras coisas antes, mas infelizmente eu estava atormentada com faculdade, um namoro em queda livre, experimentando conhecer intercambistas japonesas. E tu estava fazendo intercâmbio nos EUA, estudando, sendo babá para uma família, batendo o carro dessa família (barbeira!), esperando na porta dos fundos atores de filmes que estavam fazendo teatro para tirar uma foto com eles abaixo de um frio de menos tantos graus. Recebi todos os postais.

Parece que foi ontem quando eu tinha me desentendido com uma amiga e tu veio falar comigo como quem não queria nada. Marcamos de nos ver e fomos jantar, conversar. Tu tinha voltado de Londres e me deu postais que eu tinha pedido. Tu me contou como Londres é incrível pra ti, como aquele ar úmido, frio e melancólico te aquecia por dentro. Londres é um lugar quase místico, onde nasceram os Beatles, que tu amava, onde a Rowling criou Harry Potter, que tu amava, onde existe um Starbucks em cada esquina e onde o sotaque dos homens nos encanta.

Lembro da minha surpresa quando te vi namorando o meu amigo da faculdade. Lembro de ti se queixando dele quando tu decidiu terminar tudo, pouco tempo depois.

E lembro quando fomos jantar e tu disse que estava com intolerância à lactose e fazendo biscoitos especiais para quem tem esse problema. Tu recitou receitas, que eu já esqueci, porque nessa noite eu estava bebendo cerveja, tu bebeu suco e me deu carona de volta.

De repente, enquanto eu tentava estudar para um concurso, tu me mandou uma mensagem dizendo que estava no hospital. Tu tinha passado por uma cirurgia. Eu não estava sabendo de nada. Peguei meu celular e corri pelas esquinas da Av. Independência até a Santa Casa, onde te encontrei na cama, levemente dopada, falando baixinho. Tu me perguntou da minha viagem ao Japão. Eu contei tudo. Falei que trouxe lembrancinhas. E tu me disse para eu passar na tua casa quando tivesse alta.

Eu não lembro por que demoramos tanto para nos ver. Provavelmente porque aqueles 7cm de intestino necrosado precisariam de mais do que uma simples cirurgia. Isso porque tu usou a palavra “metástase” e eu não sabia o que aquilo poderia significar àquela altura.

Quando tu recebeu alta, depois de exames, tratamentos, remédios, fui te ver em casa, com as lembrancinhas. E te vi tão magra, tão frágil, que pensei que com mais um passo tu iria desmontar ali mesmo. Sentamos no sofá, conversamos, bebemos chá. Tu passava a mão pelos cabelos recém cortados pelo teu cabeleireiro e os fios aderiam à tua mão como pelo de gato aderem à calça jeans. “Eu estou comendo bem pouco por recomendação médica”, tu dizia. “Eu tenho ainda uma bateria de exames”, “quimio”, “radio”… um monte de termos e palavras que eu jamais imaginei que pudessem ser combinadas e usadas numa frase por ti.

Te vi no hospital outra vez. Magra. Careca. Mas com um humor meigo que era só teu. Animada com a ideia de usar uma peruca. Eu brinquei que ia te comprar no eBay uma peruca verde com orelhas de gato. Nunca comprei. Não ia chegar a tempo. E acho que eu já sabia disso.

E depois te vi no teu aniversário, feliz por tantas pessoas estarem contigo, mas vi uma sombra de desgosto passar pelos teus olhos quando alguém te abraçava com aquele ar de despedida.

A despedida veio, depois de tu ter melhorado um pouco, só para em seguida ser empurrada para a queda livre.

No dia 19 de setembro, eu recebi uma ligação de uma amiga tua. Ela disse que tu estava “ruinzinha”. Eu não acreditei. Agi como se fosse exatamente isso, peguei a bolsa e fui te ver. Mas tu não me viu. Tu não falou comigo. Eu não te culpo, eu culpo a morfina, esse santo remédio que te impediu de sentir dor quando eu fui te ver, tocar teu rosto encolhido, um terço do rosto daquela menina tímida ao lado da professora no primeiro dia de aula.

Enquanto tu respirava pela boca com dificuldade, eu falava baixinho sobre qualquer coisa. E me calei. Olhei o teu mural e vi uma foto nossa, com um imã de estrelinha. Uma foto do dia em que tu me contou que estava com intolerância à lactose, uma mentira que acreditamos ser verdade.

Eu te ajudei a mudar de posição. Teu corpo não oferecia resistência, era pele e osso e memórias.

A luminária em forma de cupcake iluminou o teu rosto quando eu finalmente decidi que era hora de eu ir, quase cinco horas depois de apreciar a tua companhia pela última vez. Tirei uma foto da nossa foto, porque tu nunca me mandou, mas acho que nunca pedi.

Me inclinei bem perto de ti e falei “tchau”. Falei “eu te amo”. Não consegui dizer que ia sentir saudades para sempre. Não consegui dizer que tu foi uma amiga incrível, apesar de não ter sido presente de corpo. A tua presença de coração, de alma, de existência, essa que realmente contava, e isso tu me demonstrou toda a vez que tu mandava uma mensagem. Atrás do teu sorriso meigo quase comedido, tu sacramentava uma amizade sincera, espontânea, linda.

Aos vinte e nove anos, no dia 22 de setembro, tu nunca mais vai sacramentar nossa amizade com um sorriso. Mas eu sempre vou lembrar dele. Esse sorriso que eu recebia a cada bom dia no colégio, a cada canção em inglês cantado errado, a cada confirmação de que, sim, a Pequena Patrine é uma boboca. Esse sorriso que eu recebi mesmo não sendo mais, talvez, a tua melhor amiga.

Mas quero que tu saiba, e isso eu não consegui dizer: eu sempre te considerei uma boa amiga. Uma ótima amiga. E eu queria ter tido mais tempo pra te provar isso com mais sorrisos.

Vou sentir a tua falta, Rachel. Descansa em paz.
Marília (de perfil), Rachel, testa da Daniela, eu, Débora.

You Might Also Like

0 comments

Be nice :)

Seguidores