Mudança

janeiro 11, 2023


 
Cardamomo informa: POST COM PALAVRÕES.
 
Tomei a decisão de me mudar. Aceitei a expulsão do meu apartamento porque uma lavagem irregular de carros, aparentemente, é uma  entidade mística praticante de atividade essencial que deve ser preservada. Por analogia, é como se uma empresa que polui um rio pudesse continuar poluindo um rio até parar de poluir o rio.

E como este é o meu blog eu posso reclamar bastante para quem quiser ler. Não consigo mais falar sobre esse problema - um grão de areia em comparação a problemas maiores, mas ainda assim um problema para mim - sem chorar. E chorei, chorei pra caralho. 
 
As pessoas são condescendentes, mas eu sei que elas não aguentam mais me ouvir reclamar do barulho da lavagem. Talvez não porque seja um saco ouvir a pessoa reclamando disso toda a semana, mas também porque elas não podem fazer nada. Elas só podem tentar ajudar sugerindo a solução fácil: me mudar.

Mas é tão difícil de engolir. 
 
Eu moro onde moro desde 2018, quando não tinha essa lavagem maldita. Era uma delícia chegar em casa mais cedo, era uma delícia ficar em casa num sábado. Era possível convidar os amigos e a família para almoçar no sábado. 
 
Decorei o apartamento com móveis e objetos da minha mãe e do meu pai, os quais nem sei se vou conseguir levar para o apartamento que eventualmente vamos alugar. Talvez nem as camas consigamos levar. 

Aí as pessoas querem me ajudar querendo que eu veja "o lado bom" de me mudar. Sim, teria um lado bom, no qual não haveria uma lavagem de carros fazendo barulho o dia inteiro. Mas é só. Não é uma mudança para melhor, não é porque a família cresceu, ou porque gente gostou de um apartamento novo, ou porque a gente quer investir, é só pra sair de perto de um mal. Querer se mudar é diferente de precisar.

Eu nunca pensei que eu fosse desenvolver gatilhos com aspirador de pó. E, agora, gatilhos com anúncio de apartamento, porque agora eu sempre me pergunto se tem lavagem do lado. Já pensei em fazer terapia, mas nunca pra falar sobre um aspirador.

E os vizinhos? Os meus vizinhos são um CAGALHÕES, fora os pau no cu que vão lá levar o carro nessa lavagem. Ainda tive que ler no grupo de Whatsapp uma mensagem da vizinha que me censurou (apagando minha reclamação sobre a lavagem) dizendo que tenhamos mais empatia em 2023. Que vontade que me deu de responder essa vaca dando uma voadora na empatia dela. "Ai, vamos ter empatia e cooperação entre os vizinhos", e esses mesmos cretinos ou fazem piada do transtorno alheio ou alimentam o mal que causa o transtorno alheio.

Empatia tenho que ter eu pela mosca da vez lavando carro, levando criança pra ficar do lado daquele aspirador ligado, porque está trabalhaaaando. Empatia tenho que ter eu pelos vizinhos que apoiam a lavagem porque acham que uma lavagem de 2 anos impede um estacionamento de 20 anos de ser vendido pra contruírem um prédio no terreno. Os vizinhos que adoeceram trabalhando na pandemia ouvindo um aspirador a céu aberto que se mudem, ou melhor, que se fodam.

Então começo a procurar apartamento para alugar por perto e aí começam as merdas: sem vaga; não aceita animal; sem gás encanado; sem luz solar; muito caro; barato mas crackolândia; perto de bar; de frente pra avenida; perto de OUTRA lavagem. Talvez seja o caso de ver apartamentos mais longe, mas vamos depender do carro para ir trabalhar. Atualmente podemos ir à pé.

Eis que, do alto do meu desespero, começo a ver jurisprudência desfavorável para lavagens de carro e, no Tribunal daqui, só achei um processo, contra o Município, em que a lavagem perdeu. Mas quando eu li a Prefeitura interditou os equipamentos e que o cara da lavagem ficou DOIS ANOS esperando o resultado do pedido da licença ambiental, pensei: Prefeitura de merda. Denunciei quinhentas vezes o barulho e não interditaram um aspirador. Não mandaram suspender as atividades até sair licença ambiental, que só foi solicitada pela vaca da dona do estacionamento no final de 2022. E até tudo isso concluir eles podem fazer poluição sonora. São tão lindos. Tão coitadinhos.

Daí resolvi ver quem era a procuradora do município. Procurei no cadastro nacional e vi que ela ainda trabalha para o município. E tive a ideia de entrar em contato com a Procuradoria de Urbanismo e Meio-Ambiente para ver se é possível marcar um horário pra conversar com alguém competente que entenda que, se interditaram uma lavagem que tinha 20 pessoas, interditar uma em vaga de estacionamento que literalmente faz um rodízio de moscas não deveria ser problema nenhum.

Não quero me mudar...

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2 comments

  1. Ai, Amanda, sei nem o que te dizer. A minha casa é o meu porto seguro, e perder isso (de novo, porque já aconteceu) seria (e foi) péssimo. Pode falar quantos palavrões você quiser!

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    1. A essa altura não tem mais o que ser dito. Eu não tenho mais outra forma de mostrar pras autoridades competentes que um aspirador de trocentos decibéis causam transtorno dentro do meu apartamento. Nem imagino como deve ser traumático perder o lar, pelo motivo que for, mas contra a nossa vontade.

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