Comecei sem assunto, terminei falando de bullying

outubro 14, 2021

Eu venho tentado postar alguma coisa, mas não dá tempo e, quando dá tempo, não dá saco.

Não tenho nenhum assunto especial. Estou saindo de casa para trabalhar - contra as recomendações do escritório - para fugir do barulho da lavagem. Consulto toda a semana os andamentos da denúncia no Ministério Público e vejo que está andando, mas não sei o que são as tais juntadas e manifestações porque consegui o sigilo.

Daí eu saio passando álcool nas mãos e, parada na calçada esperando para atravessar a rua, um cachorro vem cheirar meus tênis e eu faço um carinho. Ele dá uma lambida e eu fiquei pensando QUE É LOUCURA os pobres cachorros lamberem álcool em gel das nossas mãos.

Recentemente veio à tona o caso do Timothy Simpkins na TV e eu fiquei pensando sobre bullying. A mídia alega que ele estava se defendendo, mas na verdade verdaaade, o que ele fez foi pura vingança premeditada. 

Tá. Mas e se foi? Podia não ter sido com uma arma de fogo. Podia ter sido um soco, um pontapé, um chiclé no cabelo. Quem é vítima de bullying, além de ficar com lembranças horrorosas para o resto da vida e possivelmente com sequelas psicológicas irreversíveis, desenvolve uma sede de vingança. 

Quem pratica bullying está lá, se divertido, machucando os outros para ganhar respeito feito de espuma e poderes de pó. Até o dia em que essa pessoa perceberá que não tem armadura. Que por dentro (e por fora) ela também pode se machucar. 
 
Sofri bullying no colégio, dos 10 aos 14 anos. Se fossemos colocar bullying num ranking de intensidade, o meu não foi nada grave: canetas furtadas, uma Big Boss manipulando os outros para não serem meus amigos, outra Big Boss manipulando os outros para não falarem comigo, algumas humilhações públicas. Dentro de um ranking imaginário, não é nada de mais. 

Mas para nos sentirmos um lixo, basta sermos ignorados a mando de alguém. Bastou para eu, aos 14, desenhar cada colega de aula morrendo de um jeito diferente (James Wan ficaria inspirado). Eu poderia ter surtado e machucado algum colega? Poderia, lógico, e não fiz não porque tinha medo desses colegas e do babaca do Coordenador, eu tinha medo era da bronca do meu pai e da minha mãe.

De vez em quando eu conversava com minha mãe sobre o que eu passava no colégio, quem fez o quê, como. Minha mãe dizia para eu "ignorar" porque o que essa gente mais odeia é ser ignorado. Hoje eu entendo a minha mãe. "Não briga", ela queria dizer. "Não cria confusão". Porque naquele colégio, aluno com problema (normalmente pais separados) eram seres preciosos que precisavam de miminho na cabeça e, também, aparentemente, de liberdade para encherem o saco dos "privilegiados" de pais unidos. Então se eu, na condição de aluna "privilegiada", comprasse briga, certamente eu seria suspensa. Mas o aluno sob story ouve só um sermão patético do Coordenador. 

Então hoje eu penso totalmente diferente da minha mãe. Não tem que ignorar. Não tem que aceitar. Não tem que voltar para casa dizendo que está tudo bem e chorar no quarto sem entender nada. Mas também não é para sair esporreteando, ou pior, sair atirando E ERRANDO o alvo. Uma coisa é estar preparado para saber o que fazer quando te dão um passa-pé no corredor, na frente de todo mundo. Outra coisa é cair no passa-pé, engolir esse batráquio e regurgitar violência descomedida e mal planejada.

Na minha opinião, o negócio é pensar numa estratégia. É preciso ensinar a criança ou adolescente a se defender de humilhação, de ridicularização, de manipulação antes de sentirem sede de vingança.

Era isso. Não sei concluir o post. Não pratiquem bullying! Conversem com seus filhotes sobre isso e ensinem a se defender, porque assim terão uma chance de não carregar mágoa, rancor e/ou CIDs pelo resto da vida.

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6 comments

  1. oi amanda, tudo bem?
    não poderia concordar mais contigo apesar de que comparado com a sua história de bullying a minha tenha sido menor ainda em gravidade na parte do ranking hah, mas eu era ainda mais nova e sofri o bullying no condomínio onde eu morava (na escola um pouco também mas os meninos que me irritavam levaram um puxão de orelha da coordenadora e depois todo mundo acabou amigo, vai entender)

    o doido é que meus pais tinham a visão exatamente o contrário dos seus, eles sempre falaram pra eu revidar, que eu tinha força (e tamanho) pra acabar com aquelas pentelhas, real, cair na porrada mas, era eu que não queria encrenca. Nunca gostei de brigas então eu me envolver em uma sempre foi improvável só que é claro o efeito e as consequências que uma criança sofre disso.

    eu concordo sobre ter que ter uma estratégia, mas também fico no meu lado sobre não arrumar uma 'vingança', por muito tempo eu vi o karma acontecer com todo mundo que me fez mal HAHA.

    ainda tem muita desinformação sobre bullying e muitos valentões saindo impunes do que fazem e, acho que o pior, muitos pais que ainda acham que é "mimimi".

    e sabe uma coisa engraçada? esses dias eu achei o perfil da menina que mais praticou essas violencias comigo na infância e ela está cursando psicologia, hm, no mínimo controverso.

    beijos amanda, estarei voltando aqui mais vezes, gostei muito do seu blog ♥

    lilimerence.blogspot.com

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    1. Obrigada pela visita! :)

      Quem está na pele da vítima de bullying - qualquer que seja a intensidade - sabe como é e sabe como fica marcado para sempre. Para quem pratica e para quem nunca sofreu, será "mimimi" mesmo. Talvez porque eles pensem "ah, eu faria isso", mas a questão é que, no momento, a gente quer ou sair de perto ou um aliado. Ou ter a certeza de que não vamos ser suspensos se dermos uma voadora.

      Gostaria de saber o que essa menina diria para um paciente que esteja sofrendo bullying. No mínimo, serviria de aprendizado para ela. Eu também procurei uma das Big Boss depois de anos e é um misto de estranheza pelo fato de procurar por ela e de alívio ao ver que ela não brilhou.
      Beijos!

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  2. Sua mãe foi muito certeira. Antigamente chamavam esses alunos de bully. Hoje na vida adulta eles se chamam narcisistas, mas as táticas são as mesmas, porém mais refinadas.

    Beijos


    Lola Hurricane
    www.lolahurricane.blogspot.com

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    1. Minha mãe provavelmente achava melhor ignorar porque sabia que eu não tinha chance de começar e/ou terminar uma briga sem sair perdendo.
      Eu queria ignorar, eu tentava ignorar, mas não queria ficar isolada e não queria deixar que o resto fosse manipulado por duas imbecis. Então é esse o meu ponto: não tem por que deixar nossos filhos apanhando (física e emocionalmente) calados.
      Já é difícil a gente ser criança/adolescente, inventar complexos e cultivar insegurança. Não tem por que aturarmos alguém na turma que faz questão e sente prazer em isso contra ti. Nem imagino como é hoje em dia, com o cyberbullying e essa moda do "shaming mob" e essa "cultura do cancelamento".

      Beijos!

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  3. aflita demais pensando em como educar sarinha pra não fazer bullying jamais e pra saber se defender também. essas coisas marcam a gente né? putamerda. o ideal seria que as pessoas simplesmente não fossem escrotas mas a realidade é saber se defender mesmo.

    lembro de estar na 2a série e ficar incomodadíssima porque um menino de outra série vivia levantando a minha saia no recreio. reclamei para os professores e NADA (nada de novo sob o sol). reclamei para o meu pai e ele me orientando a chutar no meio das pernas do moleque caso isso se repetisse. isso me marcou bastante porque ninguém quer se exposta assim no colégio, porque eu segui a orientação dele e porque o diretor chamou ele indignado com a postura dele. "o senhor não pode instruir sua filha a fazer isso" "tanto posso que instrui, ela fez e o menino não incomodou mais ela" HAHAHA rindo de nervoso mas é isso. tenho receio de num reflexo instruir a sara a chutar sacos alheios mas sinto que prefiro isso do que ela tendo que seguir um dia com "a vida é assim você não pode revidar".

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    1. A verdade é que essas coordenações de colégio nunca souberam lidar com bullying. Se puderem, fazem questão de se livrar do problema de uma criança "preciosa" colocando um problema em uma criança "privilegiada".

      Mas o seu pai estava coberto de razão e, acima de tudo, ele estava te protegendo de algo que poderia ficar maior e mais incontrolável. Imagina ficar, sei lá, cinco anos sofrendo calada enquanto um menino levanta a tua saia porque ele acha que PODE. Pelos próximos cinco anos, o que mais ele acharia que poderia fazer - contigo e com outras meninas? Sei lá, o conselho do teu pai pode ajudado esse menino a não virar um agressor de mulheres na vida adulta. Quantos empurrões a gente levou sem revidar porque "é só um empurrão", "tu só caiu e ralou o joelho porque ele te empurrou", "tu só caiu na frente de todo mundo e todo mundo riu porque te deram um passa-pé".
      Chutar o saco alheio pode ter muitos significados, inclusive o literal, mas para todos os efeitos implica saber se defender de uma agressão sem virar um agressor.
      Eu tenho certeza de que a Sara vai ser uma pessoa gentil com as pessoas. Todo o amor que tu transborda nos teus posts está nela e ela vai passar esse amor adiante :)

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