Esse sentimento estranho: a amizade

abril 23, 2021

Há alguns anos eu me vi assistindo vídeos do TedTalk sobre amizade: o que fazer para manter, o que fazer quando ela termina, como identificar uma amizade tóxica, como saber se tu é o amigo tóxico, como reconciliar, como superar.
A primeira amizade que eu perdi foi na sétima série; uma amizade que começou na quinta. 

Sentávamos uma do lado da outra, desenhávamos juntas, dividíamos a leitura das Animax (revista essencialmente sobre anime lá p, compartilhávamos um caderno de desenhos; eu tinha uma pasta com mais de 100 desenhos dela. 

Quando descobrimos as Spice Girls, então: era "girl power" para cá, era foto fazendo Vzinho para lá, era nós duas decorando as letras em inglês sem entender metade da música, éramos nós duas usando plataforma e tentando fazer cosplay de Baby Spice.

Quando descobrimos a Internet, alguma coisa mudou. Nela. A Baby Spice se tornou uma espécie de Billie Eilish com roupas da Gang. As Animax e as revistinhas da Sailor Moon mudaram para Spawn. Os desenhos rarearam. Num dia sentou do meu lado, no dia seguinte não.

O que eu fiz? Briguei. Ah, briguei. Cobrei satisfação por e-mail (na época era o Zipmail). Baixamos o nível pelo ICQ. Pedi minhas Animax de volta e fui, nas férias, até a casa dela buscá-las.

Nunca mais nos falamos até que, na oitava série, depois de uma discussão, um soco (dela) e da condescendência seletiva da Coordenação ("ela te deu um soco porque tem problemas por causa da separação dos pais"), decretamos o final do nosso relacionamento.

Anos depois eu arrisquei e fiz um convite de amizade no Facebook. Ela aceitou, mas algum tempo depois percebi que não era para ser. O que tínhamos de amizade, o próprio espaço vazio deixado por essa amizade deixou de existir.

Por um tempo, eu me senti rejeitada por ela. 

Em um desses TedTalk disseram: pense na rejeição como uma projeção e uma proteção. Projeção no sentido de que o futuro pode ser diferente (para melhor). Proteção no sentido de que ter passado por uma rejeição te protegerá de situações inerentes àquela pessoa no futuro.

Não estou sabendo explicar, mas faz muito sentido. Se eu e ela tivéssemos tentado reconstruir aquela amizade, ou mesmo retomá-la de onde paramos, até poderia ter funcionado por um tempo. Mas talvez seria como colocar uma flor num pode d'água e essa flor murcharia aos pouquinhos até deixar de ser o que era.

A amizade é um relacionamento e, como em muitos relacionamentos, às vezes dá merda. Às vezes erramos porque, por exemplo, um lado não presta atenção e o outro não sabe reagir bem. E justamente por ser um relacionamento, a amizade é toda feita por sentimentos um pelo outro.

Às vezes, porém, a merda é muito grande. Eu tinha um amigo que fiz na faculdade que deu uma sumida e, alguns anos depois, reapareceu muito solícito, querendo reunir os amigos para mostrar como a vida dele estava bacana: casado com uma mulher jovem e descolada, investindo morar na Itália graças a uma quantia deixada no inventário do avô, viajando para o Everest, criando um portfólio de fotografias autorais, comprometendo-se em trazer encomendas dos Estados Unidos para os amigos.

Tudo muito perfeito até que ficou tudo muito esquisito. A esposa, que estava na cidade, nunca queria sair. As encomendas nunca chegavam. As localizações no Facebook ficaram desencontradas. Até que um dos amigos dele abriu o jogo. 

As fotos da "esposa" eram do Instagram da cantora da banda Lights. As viagens nunca foram feitas: ele usava um software para mudar a localização no Facebook. Obviamente não tinha feito encomenda nenhuma. Como não tinha esposa de verdade, não tinha comprado imóvel na Itália. As fotos do portfólio foram todas roubadas do Flickr. 

Mesmo depois de termos descoberto todas as mentiras ele tentou sustentar as mentiras, envolvendo a própria família nisso. Algum tempo depois outras pessoas vinham falar comigo dizendo que ele tinha inventado mentiras para obter vantagens financeiras.

Ele pediu desculpas depois, disse que tinha problemas. Todo mundo tem problemas, meu filho, e eu vivi para ver usarem esses "problemas" para me darem um soco no peito e me fazerem de palhaça. Por isso eu decidi encerrar a amizade, sem possibilidade de reconciliação.

E, agora, eu me imagino no lugar dele. Se eu tivesse feito todas essas barbaridades, será que haveria chance de recuperar a amizade e a confiança perdida dos outros? 

Muitas vezes nós brigamos com nossos amigos por tão pouco e não damos chances para explicações e não abrimos a cabeça para ouvi-las. Não estou dizendo que esse criminoso mereça uma chance (não merece). Eu quero dizer que, por muito, muito menos, uma amizade forte como aço se transforma num cristal vagabundo e se quebra para sempre com um descuido.

Em um grupo do Whatsapp eu soltei uma brincadeira/indireta para uma amiga, que não gostou nem um pouco e brigou comigo. Cortou relações. Eu pedi desculpas, ela não aceitou. Pedi desculpas por Twitter, postando vários gifs de gatinhos tristes. Não adiantou. Até que eu fiquei pistola também. Porra, errei, entendi o meu erro e pedi desculpas! O que mais é necessário para mostrar meu arrependimento?

Depois de meses ela me perdoou.

O fato é que uma coisa é perdoar, outra é confiar. 

Assim como o fato é erramos com as pessoas, as pessoas erram conosco. Somos imperfeitos, imaturos.

Outro fato é que a amizade não funciona se se tornar um sentimento unilateral e qualquer descuido da outra parte servir como uma justificativa injustificável. 

Outro fato é que a amizade não será forte se toda e qualquer diferença e discordância virar um empecilho moral de conflito de valores.

E outro fato, acho que o mais importante, é que a nossa vida não parou porque uma amizade terminou, ainda que lembremos daquela pessoa ou ela lembre de nós, mas decidamos nos manter cada uma de um lado da parede de tijolos.

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6 comments

  1. Boa noite Amanda, parabéns pelo seu trabalho. Acho que amizade verdadeira está em falta em nossos dias, mas não podemos desistir. Comecei a seguir o seu Blogger e gostaria de ter o privilégio de você me seguir também. Um excelente final de semana.

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    1. Olá, Luiz. O que é, afinal de contas, "amizade verdadeira"? Uns pensam que é amar exatamente as mesmas coisas. Outros pensam que é um sentimento recíproco. Eu confesso que tenho, hoje em dia, um pouco de dificuldade em definir uma amizade verdadeira, mas em contrapartida tenho esse sentimento por algumas pessoas :)

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  2. bem como você pontuou, a amizade é um relacionamento. e pouca coisa difere amizade de um relacionamento amoroso, somos seres humanos e lidamos com eles. então nada será 100%. infelizmente (infelizmente pq ainda estou discutindo comigo mesma em relação á tantos aprendizados que precisamos ter) na maioria das vezes as pessoas entram em nossas vidas para que possamos (ambos) aprender com aquela pessoa,e aquela pessoa aprender com a gente.

    é de mera importância ter a ciência de que eu sinto de uma maneira, e você sente de outra... isso não anula o meu sofrimento, nem o teu.

    com o rompimento da sua amizade com a girl da 5a série, você sentiu, ela sentiu (do jeito dela). doeu, você aprendeu a se preservar mais e tomou ciência que por mais importante que ela fosse pra você, não dava mais. e que insistir só te machucaria mais e mais.

    esse outro ser, totalmente algum tipo de distúrbio. mas a sua amiga também teve problemas, ela teve uma outra maneira de lidar com isto. relacionamentos quando deixam de fluir, automaticamente depois de tanto tapa, a gente começa a se fechar.

    fui muito escrota com uma amiga, num momento de fúria mesmo. doeu muito ficar longe, ficar sem falar. eu pedi perdão, ela não esqueceu. mas continuou sendo a mesma porque me entendeu. se deu ao trabalho de me entender.

    então tem coisas que é pesado, ainda mais quando não depende só da gente.

    consigo identificar quem realmente gosta da minha amizade, de quem não gosta. devemos parar de rotular relacionamentos. não existe amizade verdadeira, existem pessoas verdadeiras...

    no final de tudo mesmo, só resta o amor. o amor que você sente por aquele amigo, que você ajudaria no que fosse capaz. o amor, quando você vê que ele conseguiu alcançar os objetivos que tanto quis... no final existe o amor.

    desculpa, me prolonguei. talvez voce nao entenda o que eu quis dizer mas kkkkk

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    1. Obrigada pelo comentário ♥ É interessante saber o ponto de vista dos outros sobre a amizade. Eu concordo que é algo parecido com um relacionamento amoroso porque precisa existir o amor para uma amizade vingar e perdurar. Mas quando a amizade termina, por exemplo, com sua melhor amiga, para onde vamos enxugar as lágrimas? Quando uma outra amizade terminou, chorei sozinha no meu quarto por semanas, porque eu gostava bastante da pessoa e da nossa amizade, mas ninguém gostava muito dela. Então eu não tinha ombro para chorar porque sabia que diriam "já foi tarde", e não era o que eu precisava ouvir. :(

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  3. Oi Amanda!

    Toda relação, não importa o tipo, é uma via de mão dupla, e toda escolha tem consequências. Teu post me lembrou um quote do Freud, onde um jornalista questionou ele se a análise psicanalítica despertaria nas pessoas a "caridade cristã", e seriam mais compreensivas e pá. Freud respondeu: Pelo contrário!T udo compreender não é tudo perdoar. A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado.

    E acho que é meio isso - a gente envelhece, olha pra trás e se percebe imatura pra lidar com algumas coisas, mas aí olha pra frente e percebe que quebrar a cara nos ensinou a não sermos permissivas. E amizade é um pouco disso: é a gente poder negociar, entender, perdoar, mas também não permitir que nos façam de trouxa, né? Hahaha!

    Espero que você possa manter ao seu lado as boas relações e que não precise mais se sentir na obrigação de ficar regando terra seca!

    Respondendo seu comentário: como eu falei no post, é justamente por fazer o mapeamento que eu me liguei do problema, hahaha! Eu pessoalmente acho que mapear as coisas ajuda muito quando você tente a se perder na rotina como eu, daí basta você olhas pras anotações pras revelações acontecerem, hahaha! Mas agradeço pela sugestão ainda assim <3

    Beijinhos! :*

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    1. "Tudo compreender não é tudo perdoar". Isso é uma verdade dolorosa que se aplica a mim com relação aos amigos que machuquei ao longo da vida e vice-versa. Compreendi que a amiga da 5ª série foi influenciável, mas perdoei. Compreendi que o mentiroso diz que tem problemas (mas ele é mentiroso, então...), mas esse decidi não querer ver nem pintado de ouro.
      Dói bastante quando nós somos só compreendidos, mas não perdoados. Eu tinha essa expectativa com uma pessoa, depois de alguns anos, e isso não aconteceu. É muito frustrante, mas é a vida e, assim como eu tenho o direito de não perdoar o mentiroso, ela tem o direito de não me perdoar.

      Manter amizades não é uma tarefa fácil para mim. Por isso eu estou procurando sempre valorizar as poucas que tenho, evitando sugar a energia das pessoas e evitando, ao mesmo tempo, deixar a terra seca.

      Talvez eu deva mapear meus sentimentos relacionados à amizade e, com isso, detectar algum problema em mim.

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