"Isso o juiz não vê"
dezembro 02, 2015
Eu
estava no 9º andar do Foro Central - Prédio I. No andar acima, além de
um delicioso restaurante buffet baratésimo (tá em Porto Alegre e sem
muita grana? Recomendo!), também funcionam os Juizados da Infância e da
Juventude. Das pessoas que estão ali para conversar com os servidores
dos Juizados, 99,9% são pessoas humildes e 90% mulheres.
Eis que
ontem eu casualmente peguei o elevador que vinha do 10º andar. Fora a
ascensorista, havia mais três mulheres, duas delas mães, uma com bebê no
colo e a outra com o filho de uns 5 anos encostado quietinho no fundo
do elevador.
Não prestei atenção no papo das mães. A ascensorista
se virou pro menininho e perguntou com ternura se ele não tinha medo de
elevadores. O menino olhou pra mãe, depois pra ascensorista e fez que
não.
Quando chegamos no térreo, andar para a saída, aguardo as mães saírem primeiro, porque estavam com crianças pequenas.
A mãe com o bebê saiu e esperou a outra do lado de fora.
E a outra mãe se virou pro filho:
“Vâmo!”
O menino não teve nem dois segundos pra pensar, porque a mãe dele já veio puxando o guri PELOS CABELOS pra fora do elevador.
O que eu deveria ter feito: um escândalo.
O que eu fiz: troquei olhares bovinos com a ascensorista.
Saí
do elevador, naturalmente passei por essa OGRA, abri a porta da saída e
ela veio e passou por mim, sem agradecer (queria ter largado um “de
nada”, mas achei que ela fosse puxar os meus cabelos também).
Nisso vem a terceira mulher do elevador. Eu olho pra ela, ela olha pra mim e fala:
“Isso o juiz não vê.”
De fato. Se tivesse visto, chamava o Conselho Tutelar.
Mas
o que me deixou mais intrigada foi a naturalidade do menino com o puxão
de cabelos. Ele choramingou quando a mãe o puxou, mas depois estava
correndo pelo saguão, chamando a mãe, sendo criança, COMO SE NADA
TIVESSE ACONTECIDO. Caralho, HÁ QUANTO TEMPO ESSA CRIANÇA É TRATADA COMO
CACHORRO PELA PRÓPRIA MÃE?
Vendo isso, olhei aquele menino sorrindo de volta pra merda da mãe dele e pensei: “Tá aí o cara que vai estuprar uma menininha porque aprendeu que violência é normal”.



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