Pedestre, este ser incompreensível

março 31, 2014

Sempre achei normal ciclistas andando na calçada. Nada de mais. Eles não estão necessariamente correndo, estão atentos, desmontam da bicicleta se tem muita gente ou simplesmente desviam e andam na rua.
Existe um gadget incrível criado especialmente para as bicicletas. Eles são muito parecidos com isto:
Normalmente são usados para chamar a atenção de pedestres quando estão caminhando na frente de uma bicicleta cujo ciclista precisa fazer uma ultrapassagem pela calçada.
Calçada. Um domínio que parece que é defendido com unhas e dentes pelos pedestres.
Sábado eu estava andando pela ciclovia, a qual é interrompida por uma grande avenida, num cruzamento longo e perigoso. Tem até um semáforo para bicicleta. Achei que fosse dar tempo de eu atravessar o cruzamento, mas o sinal ficou vermelho para mim e eu parei onde deu: logo após a faixa de retenção da ciclovia. Até podia desmontar e voltar e fazer tudo bonitinho e direitinho, mas eu estava cuidando os carros para o caso de ser possível infringir a lei e fazer como muitos pedestres fazem e atravessam a rua mesmo com o sinal indicando para que não o façam.
O espaço para pedestres caminharem não estava nem bloqueado pela minha bicicleta. Mas o simples fato de eu não estar com a bicicleta em cima da faixa da ciclovia bastou para um cidadão com sua mulher (tigrona) passar por mim largando o seguinte comentário:
“Depois são atropelados por um ônibus e não sabem por quê.”
Não sei se foi para mim. Não sei se foi porque eu estava para atravessar o cruzamento mas estava fora da faixa da ciclovia, cuidando a) carros, b) pedestres, c) o sinal para bicicletas abrir. Só sei que aquele comentário me fez perceber pela primeira vez como bicicletas também são hostilizadas pelos pedestres. Logo os pedestres, que reclamam dos carros, reclamam das motos, reclamam dos ônibus, reclamam do caralho a quatro.
Então vamos a algumas definições sobre bicicletas de acordo com o Código de Trânsito:
BICICLETA – veículo de propulsão humana, dotado de duas rodas, não sendo, para efeito deste Código, similar à motocicleta, motoneta e ciclomotor.
Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.
Art. 59. Desde que autorizado e devidamente sinalizado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre a via, será permitida a circulação de bicicletas nos passeios.
Falta informação para as pessoas aqui de Porto Alegre. Falta conscientização dos motoristas. Falta planejamento quanto a rotas bike friendly, porque Porto Alegre é uma cidade burra, com crescimento urbano burro, que visou progredir pensando em fluxo de carros, estacionamento de carros – os pedestres que se fodam, e com eles os ciclistas.
O art. 59 do Código de Trânsito seria a norma proibitiva de trafegar de bicicleta em cima da calçada. Porto Alegre não tem muitas opções de ciclovias e ciclofaixas. Temos uma única ciclovia e ciclofaixas toscas que começam do nada e terminam do nada, dando ao ciclista a opção de dividir a rua com carros em movimento e carros estacionados e motocicletas OU andar mais devagar na calçada, respeitando os pedestres.
Sinceramente, acho que sou só eu que penso que Porto Alegre, por ser uma cidade cujo planejamento urbano cagou pros ciclistas, não deveria proibir ciclistas de andar na calçada. Não é só porque eu faço. Muita gente faz para se proteger. Para ensinar os filhos. Para andar com mais segurança.
Ora, a Prefeitura viu o Mercado Público em chamas e até hoje não começaram as obras. Danem-se as lojinhas, danem-se os empregados: temos que arrumar o Beira-Rio e derrubar árvores para construir mais ruas com esse asfalto de merda que estraga o carro e a moto de vocês.
Mas nada disso passa pela cabeça de muitos pedestres. Tanto daquele imbecil que teceu aquele comentário desnecessário, tétrico e ofensivo, quanto o outro imbecil que percebeu minha mãe andando na calçada, desatenta, mas praticamente a atropelou porque ele não teve a capacidade de parar um passinho apenas para deixá-la passar. “Não! Eu sou pedestre, a prioridade sou,eu sou Deus e vocês devem me respeitar”.
Aham, querido, vai lá atravessar a rua fora da faixa e pedir respeito para o ônibus vindo a 60km/h.

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