Inoportuna

dezembro 03, 2013

Normalmente ninguém escolhe gostar de alguém.

Não sou nenhuma expert no assunto, mas o que acontece é: pessoa A gosta da pessoa B e pessoa B pode ficar a) feliz; b) neutra; c) enojada, triste, qualquer coisa negativa.

Dependendo se for “a”, “b” ou “c”, a pessoa B teria que tomar uma decisão. Aceitar ou não aceitar os sentimentos da pessoa A?

Aceitar os sentimentos, a priori, seria ceder a uma vontade da pessoa A, no caso. Pouco importa se a pessoa A te conhece há uns dias, semanas, meses, anos. Os sentimentos brotaram naquele tempo e ninguém pode controlar isso.

Então como pode ser, na prática, aceitar esses sentimentos uma decisão ruim e preocupante?

Eu lembro quando minha amiga começou a sair com o japonês da Mitsubishi. Ela só o conhecia pelo que ele contava e aos poucos foram se conhecendo melhor, vindo a se casar com ele depois de alguns meses de namoro – meses que, normalmente, seria o período de uma ficada sem compromisso.

Lembro que ela conversava muito sobre isso comigo, sobre as dúvidas dela, tentando interpretar coisas que ele dissera e fizera. E eu tentei ajudar da melhor forma que pude, mostrando um ângulo melhor e favorável ao relacionamento. Ao meu ver, apesar de tudo estar acontecendo rápido na vida dela, eu vi que não tinha nada com o que se preocupar.

Então ela foi embora e dúvidas novas surgiram. Lá do outro lado pareciam mais sérias, já que era pra valer a vida a dois com o cara que ela conheceu, namorou e casou em poucos meses. Ela compartilhou o que sentia e eu novamente tentei mostrar o ponto-cego que ela não enxergava. E parece que deu certo. Ela nunca mais se queixou.

Não que pessoa A e pessoa B acabem planejando rapidamente o futuro videternamém. Aceitar os sentimentos de uma pessoa implica assumir um pouco de compromisso, querendo ou não. Essa relação é nova, está engatinhando.

A pessoa B não precisa estar necessariamente correspondendo apaixonadamente aos sentimentos de pessoa A para aceitar seus sentimentos. Aceitou? Sentiu felicidade? Então já temos meio caminho andado.

Ou será que precisa, sim, Amanda, cala a boca?

Mas não podemos confundir essa felicidade com o desespero da carência. É bem plausível alguém julgar pessoa B por ter aceitado os sentimentos da pessoa A só porque estava sozinha, pulando de um affair para outro e se sentindo mal porque nenhum queria nada com nada ou os que diziam que queriam não davam segurança o bastante.

Uma hora perde a graça de ter affairs e criam-se outras metas, como passar a exigir um relacionamento acima de uma simples ficada ou achar melhor fechar-se num casulo sentimental de solidão e tristeza – e pessoa B não precisa postar isso pro Facebook inteiro saber. Só precisa sentir.

E se a pessoa A coincidentemente é a primeira que aparece e coincidentemente também não quer uma simples ficada e coincidentemente gosta da pessoa B? Ou ainda, e se pessoa A é aquela inoportuna que aparece para estragar os planos de solidão da pessoa B, oferecendo algo mais do que uma ficada?

Já diria um cantor: A vida não para, não espera, não avisa

Não que pessoa B esteja fazendo projeções de casamento e família already, mas tomemos como exemplo o sucesso que foi o namoro da minha amiga com uma pessoa tão diferente, de uma cultura diferente e que mora num País com exigências, regras e condutas diferentes. Tinha tudo para dar errado, até o consulado era contra, e tudo isso gerou inseguranças na minha amiga, inseguranças até sobre os sentimentos dela por ele. E isso é perfeitamente normal; é muito raro um casal ter tanta segurança assim em tão pouco tempo. Existe, mas é raro. Parabéns aos casais que são assim.

Mas assim como um casamento maravilhoso pode acabar em divórcio, um namoro que tem tudo para dar errado pode resultar em bodas de diamante. Quem é que sabe? Meus amigos experts devem saber.

Pessoa B pode ser insegura, pode ser precipitada, mas sabe que não sentido esperar por um príncipe encantado montado em um alazão branco reluzente que atenda às expectativas dela e dos outros. 

No meu caso, por exemplo, tem uma porrada de gente esperando que eu me enjoe logo desses asiáticos e troque a preferência para os ocidentais peludos. Daí se aparece um asiático e eu decido namorar com ele, o pensamento instantâneo parece ser “ah, mas é só porque é asiático” ou “ah, ela tá carente, então qualquer olho puxado serve”.

Se viesse um viking ruivo e pele cor-de-leite, me pergunto se pensariam que eu estava TÃO carente e TÃO desesperada a ponto de corresponder aos sentimentos de um homem que não faz o meu tipo, mesmo que eu esteja realmente gostando de um ocidental-pele-nórdica. Ou talvez pensassem que, para ficar com o ocidental, eu tive que pensar bem mais sobre os meus sentimentos…

Ainda bem que outros amigos que se importam com pessoa B estão ali torcendo para que dê certo, dando apoio e dizendo “don’t freak out” nos momentos de insegurança oriundos de uma relação ainda bebê.

Pessoa B ouviu de pessoa A um pedido, aceitou e ficou muito feliz. Não era isso que deveria importar…?

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